Técnicas de recondicionamento de superfícies desgastadas em equipamentos industriais de grande porte

Substituir um eixo, alojamento, munhão ou outro componente de grande porte por causa de uma superfície desgastada pode representar custo elevado, fabricação especial, dificuldades logísticas e semanas de indisponibilidade. Em muitos casos, porém, o componente mantém integridade suficiente para ser tecnicamente recuperado.

O recondicionamento de superfícies desgastadas busca restabelecer dimensões, geometria e características funcionais necessárias à operação. Entre as alternativas estão usinagem associada a buchas ou mangas, aspersão térmica, revestimento por soldagem e processos combinados.

O ponto crítico está na escolha da técnica. Recuperar simplesmente o diâmetro nominal não significa recuperar a função do componente. Antes de decidir como adicionar material, é necessário compreender por que ele foi perdido.

Antes de escolher o processo, descubra por que a superfície desgastou

Uma sede de rolamento desgastada pode estar associada a ajuste inadequado, movimento relativo do anel, desalinhamento, vibração ou problemas de montagem. Um eixo marcado na região de um retentor pode apresentar desgaste relacionado à abrasão ou contaminação. Já um alojamento ovalizado pode indicar perda de interferência, deformação ou esforços mecânicos inadequados.

Se a causa permanecer ativa, uma recuperação dimensional bem executada pode voltar a apresentar o mesmo problema.

A inspeção deve começar pela caracterização dimensional. Diâmetro, ovalização e conicidade podem exigir medições em diferentes seções e direções. Uma única leitura com micrômetro dificilmente representa toda a geometria de uma superfície desgastada.

Em eixos e superfícies relacionadas ao eixo de rotação, o batimento também pode ser relevante. Trincas ou danos superficiais devem ser investigados pelos ensaios não destrutivos adequados ao material e à condição encontrada.

Dureza e rugosidade podem fazer parte da avaliação quando interferem na função. Material-base, tratamentos térmicos ou superficiais existentes, esforços atuantes, temperatura de serviço, tolerâncias e especificações do fabricante completam as informações necessárias.

Uma prática importante é registrar as dimensões antes da usinagem preparatória. Depois que a região é usinada para receber revestimento, manga ou soldagem, parte das evidências da falha original pode desaparecer.

Qual técnica utilizar na recuperação?

Não existe um processo universal. A escolha depende da quantidade de material perdido, função da superfície, material-base, propriedades requeridas e consequências do próprio método.

Usinagem associada a buchas ou mangas

Pode ser uma solução eficiente quando existe material suficiente para permitir preparação dimensional sem comprometer a resistência do componente.

A região desgastada é usinada para receber um elemento intermediário com ajuste previamente definido. Depois da montagem, a superfície pode receber acabamento até atingir a condição funcional necessária.

Em regiões de vedação, existem mangas específicas para recuperar pistas desgastadas por retentores. Em aplicações adequadas, essa solução pode evitar uma intervenção mais extensa ou a substituição completa do eixo.

O erro é considerar qualquer bucha apenas como preenchimento dimensional. Interferência, espessura disponível, transmissão de esforços, temperatura de trabalho, material utilizado e possibilidade de movimentação precisam ser avaliados.

Aspersão térmica e metalização

A aspersão térmica permite depositar material sobre uma superfície previamente preparada e pode ser empregada na recuperação dimensional ou na obtenção de determinadas propriedades superficiais.

A ISO 14921 estabelece procedimentos relacionados à aplicação de revestimentos por aspersão térmica em componentes de engenharia. A preparação da superfície é parte fundamental do processo.

Dependendo da solução adotada, a recuperação pode envolver usinagem preliminar, preparação superficial, mascaramento, aplicação do revestimento e posterior usinagem ou retificação até a dimensão final.

Também é importante evitar especificações genéricas como “metalizar o eixo”. A ISO 14917 classifica diferentes tecnologias de aspersão térmica. Processo, material depositado, preparação, espessura e acabamento precisam ser compatíveis com a aplicação.

Recuperação por soldagem

O revestimento por soldagem pode ser considerado quando existe necessidade de reposição de material ou obtenção de características específicas na região recuperada.

Nesse caso, o aporte térmico merece atenção. Dependendo do material, geometria e procedimento utilizado, podem ocorrer distorções, tensões residuais e alterações metalúrgicas.

Antes da execução devem ser avaliados processo de soldagem, consumível, preparação, sequência de deposição, necessidade de controle térmico e inspeções aplicáveis. Em componentes críticos, simplesmente “encher com solda e usinar” sem procedimento tecnicamente definido pode introduzir um problema mais grave do que o desgaste original.

Antes de recuperar: perguntas que definem o processo

Em vez de escolher imediatamente entre soldagem, metalização ou instalação de uma bucha, a equipe pode organizar a decisão a partir de perguntas práticas.

O desgaste é apenas superficial ou existe comprometimento do componente?

Meça a perda dimensional e verifique ovalização, conicidade, batimento, deformações e possíveis trincas. Indícios de comprometimento estrutural exigem investigação antes da recuperação.

Qual é a função da superfície?

Uma sede de rolamento possui requisitos diferentes de uma pista de vedação, superfície de acoplamento, guia ou apoio. A função determina quais dimensões, tolerâncias geométricas, rugosidade e propriedades precisam ser restabelecidas.

Quanto material precisa ser recuperado?

Pequenas perdas dimensionais podem admitir soluções diferentes das utilizadas em desgastes severos. A quantidade de material a recompor influencia a viabilidade de aspersão térmica, soldagem, manga ou bucha.

O componente suporta os efeitos do processo escolhido?

Antes de empregar processos com aporte térmico, avalie material-base, tratamento existente, geometria e possibilidade de distorção ou alteração metalúrgica.

Como a recuperação será aprovada?

O critério deve ser definido antes da execução. Conforme a aplicação, podem ser necessários controles de diâmetro, circularidade, cilindricidade, batimento, concentricidade, rugosidade, dureza e integridade da camada recuperada.

Regra prática de oficina: o processo somente está bem definido quando se conhece o defeito que será corrigido, a função que precisa ser restabelecida e como o resultado será medido.

A recuperação não termina quando a dimensão volta ao nominal

Considere a recuperação de uma sede de rolamento em um eixo de grande porte. Medir somente o diâmetro final pode indicar que a dimensão está correta, mas não demonstra sozinho que a geometria está adequada.

Um diâmetro aparentemente correto pode coexistir com ovalização, conicidade ou batimento incompatíveis com a montagem. Por isso, o controle final deve ser definido conforme a função da superfície.

Uma sede cilíndrica pode exigir medições em diferentes posições axiais e direções angulares. Superfícies relacionadas à rotação podem exigir controle de batimento e relação geométrica com outras regiões do eixo. Em processos com revestimento, também deve ser avaliada a integridade da camada conforme os critérios especificados.

Outro erro prático é utilizar a própria peça conjugada como instrumento de aprovação. Expressões como “o rolamento entrou”, “a bucha montou” ou “o retentor encaixou” não substituem controle dimensional e geométrico.

A rastreabilidade também merece atenção. Registrar condição inicial, medições, processo aplicado, material utilizado, usinagem final e resultados da inspeção facilita futuras intervenções e a análise de eventuais reincidências.

Quando a causa do desgaste, material, geometria, método de recuperação, acabamento e inspeção final são tratados em conjunto, o serviço deixa de ser apenas uma correção dimensional e passa a restabelecer uma condição funcional verificável, contribuindo para confiabilidade, vida útil e disponibilidade do equipamento.

Referências técnicas

  • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 14917:2017. Thermal spraying — Terminology, classification. 2. ed., 2017.
  • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 14921:2010. Thermal spraying — Procedures for the application of thermally sprayed coatings for engineering components. 2. ed., 2010.
  • SKF. CR Seals Handbook. SKF Group, 2019. Seção técnica referente a mangas de reparo para superfícies de vedação em eixos.

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