As buchas isolantes parecem componentes relativamente simples de um transformador, mas exercem duas funções críticas: permitir a passagem do condutor energizado através do tanque ou tampa aterrada e manter o isolamento elétrico necessário entre esses potenciais.
Uma trinca, contaminação superficial, conexão deficiente ou perda de estanqueidade pode evoluir de uma anomalia localizada para aquecimento, descarga superficial, perda de óleo ou falha dielétrica. Por isso, a manutenção não deve se limitar a verificar se a porcelana está quebrada.
A inspeção precisa avaliar o conjunto formado pela bucha, terminal, vedação, conexões e região de montagem no transformador.
O que deve ser observado durante a inspeção
A inspeção visual é o primeiro nível de avaliação. Em buchas de porcelana, devem ser procuradas trincas, lascas, marcas de arco, erosão, contaminação, alterações superficiais e danos nas saias.
Depósitos de poeira, sal, poluentes industriais e umidade podem aumentar a corrente de fuga superficial. A criticidade depende do ambiente, geometria da bucha, distância de escoamento e condição do material isolante.
Também é necessário verificar a região de fixação. Vestígios de óleo próximos à base podem indicar deterioração da vedação, problemas de montagem ou outra origem de vazamento próxima à bucha. Antes de simplesmente reapertar a fixação, deve-se identificar de onde o óleo está efetivamente saindo.
Os terminais merecem atenção semelhante. Oxidação, descoloração, marcas térmicas e conexões deterioradas podem produzir resistência de contato elevada e aquecimento.
A termografia é especialmente útil nesse ponto. Quando realizada com o transformador em operação e sob carga representativa, permite comparar conexões e fases em condições semelhantes. Uma diferença térmica não deve ser interpretada isoladamente: corrente, emissividade, vento, incidência solar e geometria da medição interferem no resultado.
Do primeiro sinal à decisão de manutenção
Em vez de classificar uma bucha apenas como “boa” ou “ruim”, a inspeção pode seguir uma sequência progressiva. O objetivo é evitar tanto a substituição desnecessária quanto a permanência em serviço de um componente cuja condição precisa de investigação. A linha lógica e prática a seguir seria:
INSPECIONAR: Procurar trincas, lascas, contaminação, marcas de descarga, corrosão, vazamentos, oxidação e sinais de aquecimento.
LOCALIZAR A ANOMALIA: Determinar se o problema está no corpo isolante, terminal, conexão elétrica, vedação, ferragens ou interface da bucha com o transformador.
INVESTIGAR A CAUSA: Relacionar o sinal encontrado às condições de operação, ambiente, carregamento, histórico de manutenção e construção da bucha.
CONFIRMAR A CONDIÇÃO: Aplicar inspeções ou medições compatíveis com a anomalia e com o tipo de bucha, como termografia, avaliação das conexões, inspeção de estanqueidade e, quando tecnicamente aplicável, ensaios dielétricos.
DEFINIR A INTERVENÇÃO:
- Condição aceitável: registrar e manter acompanhamento.
- Anomalia corrigível: executar manutenção e verificar novamente.
- Integridade comprometida: programar ou realizar a substituição conforme a criticidade.
Essa sequência é mais segura do que utilizar um único sinal como critério automático de condenação. Uma elevação de temperatura no terminal, por exemplo, pode estar relacionada à conexão elétrica e não necessariamente a uma falha interna da bucha. Da mesma forma, óleo encontrado próximo à base precisa ter sua origem confirmada antes que a própria bucha seja responsabilizada.
Em buchas capacitivas equipadas com tap de ensaio, medições de capacitância e fator de potência ou fator de dissipação podem fornecer informações importantes sobre a condição do isolamento. Alterações em relação aos valores de referência e à tendência histórica podem indicar necessidade de investigação.
Esses ensaios, entretanto, não devem ser generalizados para toda bucha encontrada em transformadores de distribuição. O método de avaliação deve ser compatível com a construção do componente.
Quando substituir uma bucha isolante
A substituição torna-se necessária quando a integridade elétrica, mecânica ou de vedação não pode mais ser assegurada de maneira tecnicamente aceitável.
Trincas significativas, sinais de descarga com deterioração, danos mecânicos que comprometam o isolamento, problemas internos diagnosticados e determinadas condições de vazamento podem justificar a retirada da bucha de serviço.
A substituição começa antes da desmontagem. A nova bucha precisa ser tecnicamente compatível com o transformador, considerando tensão aplicável, nível de isolamento, corrente, dimensões, conexão, interface de montagem, distância de escoamento e demais requisitos definidos pelo projeto e pelo fabricante.
Com o transformador desenergizado, isolado e devidamente liberado para intervenção, deve-se preservar a condição das conexões existentes antes da desmontagem. Fotografias e identificação dos condutores ajudam a evitar erros durante a remontagem. Necessário realizar ensaios elétricos para controle, a saber: Resistência de isolação, IA e IP, Resistência ôhmica e TTR (ensaio de relação de transformação).
Na remoção, esforços e impactos sobre porcelana ou outros materiais isolantes devem ser evitados. Após a retirada, a superfície de assentamento deve ser inspecionada e limpa, verificando-se também a condição da junta e dos elementos de fixação.
Na instalação da nova bucha, torque e sequência de aperto devem seguir as instruções aplicáveis ao conjunto. Aperto insuficiente pode comprometer a vedação ou conexão elétrica; excesso de torque pode danificar juntas, flanges e componentes isolantes.
Verificação depois da intervenção
Substituir a bucha e energizar imediatamente sem verificações finais cria um risco desnecessário.
Antes da liberação, devem ser conferidas montagem, conexões, limpeza, vedação e ausência de materiais ou ferramentas no equipamento. Os ensaios elétricos aplicáveis devem ser repetidos e comparados com os valores anteriores.
Depois da energização, a região reparada deve ser acompanhada quanto a vazamentos e comportamento térmico. Quando houver histórico termográfico, a comparação com registros anteriores aumenta significativamente o valor do diagnóstico.
Em ativos críticos, registrar fotografias, resultados de inspeção, identificação da bucha instalada, valores medidos e condições operacionais transforma uma intervenção isolada em histórico de manutenção.
Esse histórico permite identificar tendências e evita que decisões futuras dependam apenas da percepção do inspetor.
A confiabilidade das buchas não depende de um único ensaio. Ela resulta da combinação entre inspeção visual, condição das conexões, estanqueidade, histórico, medições aplicáveis e qualidade da montagem.
Em transformadores de distribuição, essa abordagem é particularmente importante porque um componente de custo relativamente pequeno pode determinar a retirada de serviço de todo o equipamento.
Referências técnicas
- INTERNATIONAL ELECTROTECHNICAL COMMISSION. IEC 60137:2017. Insulated bushings for alternating voltages above 1 000 V. 7. ed., 2017. Corrigendum 1, 2018.
- INSTITUTE OF ELECTRICAL AND ELECTRONICS ENGINEERS. IEEE Std C57.19.00-2023. IEEE Standard for General Requirements and Test Procedure for Power Apparatus Bushings. 2023.
- INSTITUTE OF ELECTRICAL AND ELECTRONICS ENGINEERS. IEEE Std C57.19.100-2025. IEEE Guide for Application of Power Apparatus Bushings. 2025.
- HITACHI ENERGY. Routine Maintenance. Documentação técnica de serviços de manutenção de transformadores.
- HITACHI ENERGY. Bushing Replacements. Documentação técnica sobre avaliação de condição e substituição de buchas.