Monitoramento remoto de parques eólicos: como transformar dados em manutenção preditiva

Em um parque eólico moderno, milhares de dados podem ser registrados continuamente sem que isso resulte, necessariamente, em um bom diagnóstico. Temperaturas, potência, velocidade do rotor, rotação do gerador, vibração, pressão, alarmes e estados operacionais só ganham valor para a manutenção quando são analisados considerando tendência, carga e comportamento histórico da turbina.

Por isso, monitoramento remoto não deve ser entendido apenas como acompanhar alarmes pelo SCADA. A estratégia mais eficiente combina dados operacionais com informações de condição para identificar desvios antes que eles evoluam para indisponibilidade ou danos secundários.

A ISO 16079-1:2026 estabelece diretrizes gerais para escolha de métodos de monitoramento capazes de apoiar detecção de modos de falha, diagnóstico e prognóstico em componentes de turbinas eólicas. Já a série IEC 61400-25 trata da comunicação e dos modelos de informação empregados no monitoramento e controle de parques eólicos.

A questão prática é transformar essa infraestrutura em decisões de manutenção.

SCADA e CMS cumprem funções diferentes

O SCADA registra informações essenciais para compreender como a turbina está operando. Entre elas podem estar potência ativa, velocidade do vento, rotação, temperaturas, posição de pitch, condição de yaw, estados operacionais, alarmes e eventos.

Esses dados permitem estabelecer relações importantes. Uma temperatura de mancal de 70 °C, por exemplo, possui pouco significado isoladamente. É necessário saber se ocorreu com baixa ou alta potência, qual era a temperatura ambiente, como outras turbinas comparáveis estavam operando e qual era o histórico daquele componente.

O CMS, ou Condition Monitoring System, acrescenta informações direcionadas à condição mecânica, especialmente por meio de vibração. Dependendo do sistema instalado, podem ser monitorados rolamentos, multiplicador, eixo principal e gerador.

A ISO 16079-2:2020 trata especificamente do monitoramento do drivetrain de turbinas eólicas. A integração entre SCADA e CMS é particularmente valiosa porque permite relacionar alterações mecânicas ao regime operacional.

Figura 1: arquitetura simplificada mostrando o monitoramento ideal para a decisão

Uma elevação de vibração no multiplicador durante determinado período pode ter interpretação completamente diferente quando ocorre simultaneamente a uma mudança de potência, velocidade ou condição de carga.

O valor está na tendência, não no excesso de alarmes

Um erro frequente é transformar praticamente toda variável monitorada em um limite fixo. Isso pode produzir grande quantidade de alarmes e pouca informação útil.

Uma abordagem mais robusta é construir referências históricas de comportamento.

Considere, de forma hipotética, que a temperatura de um mancal permaneça normalmente em determinada faixa quando a turbina opera entre 70% e 90% de sua potência. Se, sob condições operacionais comparáveis, essa temperatura começar a crescer progressivamente ao longo das semanas, existe uma tendência que merece investigação mesmo sem atuação de um alarme de proteção.

A mesma lógica pode ser aplicada a vibração, temperatura do multiplicador, óleo, gerador e outros parâmetros.

Dados SCADA já disponíveis também podem ser utilizados para detecção de anomalias e problemas de desempenho. Estudos do NREL mostram a aplicação dessas informações na identificação antecipada de alterações de comportamento, reforçando seu potencial para manutenção baseada em condição.

O objetivo, portanto, não é simplesmente perguntar:

“O valor ultrapassou o limite?”

A pergunta mais assertiva seria:

“O comportamento mudou em relação ao esperado para essa condição operacional?”

Comparar turbinas semelhantes aumenta a capacidade de diagnóstico

Parques eólicos possuem uma vantagem importante para monitoramento remoto: várias máquinas semelhantes operam simultaneamente sob condições ambientais próximas.

Isso permite utilizar a própria frota como referência.

Se dez turbinas de mesmo modelo estiverem submetidas a condições semelhantes e uma delas apresentar temperatura persistentemente superior em determinado componente, a diferença merece investigação.

Entretanto, a comparação deve ser tecnicamente controlada. Potência, velocidade do vento, regime de operação, temperatura ambiente, configuração e histórico de manutenção podem influenciar os resultados.

Do sintoma remoto à intervenção

Imagine uma turbina apresentando crescimento da temperatura do multiplicador.

O primeiro passo não deveria ser concluir que existe falha interna. Deve-se verificar potência, temperatura ambiente, sistema de refrigeração, temperatura e condição do óleo, histórico de alarmes e comportamento de unidades equivalentes.

Se simultaneamente o CMS indicar crescimento consistente de componentes vibratórios relacionados ao drivetrain, a hipótese de deterioração mecânica ganha relevância.

Seria interssante seguir os seguintes passos:

  • Sintoma: temperatura crescente
  • Possíveis causas: carga, refrigeração, lubrificação ou deterioração mecânica
  • Verificação: SCADA, tendência térmica, CMS e condição do óleo
  • Interpretação: determinar se diferentes evidências convergem
  • Ação: continuar acompanhando, intensificar o diagnóstico ou programar inspeção

Isso é diferente de substituir componentes simplesmente porque uma variável apresentou valor elevado.

A IEC 61400-25-6:2016 estabelece modelos de informação relacionados ao monitoramento de condição e intercâmbio desses dados em parques eólicos. A norma, entretanto, não deve ser utilizada como fonte de limites universais de condenação de componentes. Critérios de intervenção dependem do equipamento, fabricante, sistema de monitoramento, histórico e modo de falha investigado.

Monitoramento remoto deve terminar em uma decisão

Um centro remoto eficiente não deve funcionar como simples painel de alarmes. Cada desvio relevante precisa resultar em uma decisão proporcional à evidência disponível.

Normal: manter monitoramento.

Desvio sem tendência definida: acompanhar com maior frequência.

Tendência consistente: intensificar diagnóstico.

Convergência de diferentes evidências: planejar inspeção ou intervenção.

Evolução acelerada ou risco operacional: avaliar ação conforme criticidade, procedimentos e recomendações aplicáveis.

O monitoramento remoto gera valor quando reduz a distância entre detectar uma mudança e tomar uma decisão tecnicamente fundamentada. Integrar SCADA, CMS, histórico, comparação entre máquinas e inspeções permite direcionar recursos para os ativos que realmente exigem atenção.

Em parques com dezenas ou centenas de turbinas, essa capacidade influencia diretamente planejamento de manutenção, disponibilidade e risco de falhas inesperadas. Mais sensores não significam necessariamente maior confiabilidade. O diferencial está em transformar dados de condição e operação em conhecimento útil sobre a evolução de cada ativo.

Referências técnicas

  • ISO. ISO 16079-1:2026. Condition monitoring and diagnostics of wind turbines — Part 1: General guidelines. 2ª edição, 2026.
  • ISO. ISO 16079-2:2020. Condition monitoring and diagnostics of wind turbines — Part 2: Monitoring the drivetrain. 1ª edição, 2020.
  • IEC. IEC 61400-25-1:2017. Wind energy generation systems — Part 25-1: Communications for monitoring and control of wind power plants — Overall description of principles and models. 2ª edição, 2017.
  • IEC. IEC 61400-25-6:2016. Wind energy generation systems — Part 25-6: Communications for monitoring and control of wind power plants — Logical node classes and data classes for condition monitoring. 2ª edição, 2016.
  • KIM, K.; PARTHASARATHY, G.; ULUYOL, O.; FOSLIEN, W.; SHENG, S.; FLEMING, P. Use of SCADA Data for Failure Detection in Wind Turbines. National Renewable Energy Laboratory, 2011.

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