Aplicações práticas da termografia na inspeção de sistemas de transmissão de energia

A termografia em sistemas de transmissão de energia permite identificar anomalias térmicas em conexões, condutores, barramentos, buchas, chaves, para-raios e outros componentes sem contato direto com o ponto inspecionado. Seu principal valor está na possibilidade de localizar alterações durante a operação e direcionar a investigação antes que a degradação evolua para uma falha mais grave.

Entretanto, produzir uma imagem térmica é apenas uma parte do diagnóstico. Uma inspeção confiável exige conhecer a condição operacional do sistema, controlar as variáveis que interferem na medição e interpretar corretamente o padrão térmico observado. A ISO 18434-1 apresenta procedimentos gerais para aplicação da termografia no monitoramento e diagnóstico de condição, incluindo aspectos relacionados à coleta e interpretação dos dados.

Na prática, uma temperatura elevada isoladamente não identifica automaticamente a causa do problema.

Como tornar a inspeção termográfica mais confiável

Antes de iniciar a rota, registre as condições capazes de influenciar o resultado: carga do circuito, temperatura ambiente, vento, exposição solar, distância de medição e características superficiais do componente.

Sempre que possível, inspecione o sistema em condição operacional representativa. Uma conexão com resistência de contato elevada, mas conduzindo pouca corrente no momento da inspeção, pode apresentar pequena diferença térmica e passar despercebida.

A comparação entre componentes equivalentes também é uma ferramenta valiosa. Em um sistema trifásico, por exemplo, terminais e conexões das três fases podem ser comparados entre si, desde que estejam submetidos a condições suficientemente semelhantes.

Durante a inspeção, procure diferenças térmicas entre componentes equivalentes, aquecimento concentrado em conexões, alteração do padrão térmico ao longo de condutores, assimetrias entre fases e mudanças em relação às inspeções anteriores.

O histórico aumenta muito o valor do diagnóstico. Uma anomalia cuja temperatura ou extensão apresenta crescimento ao longo das inspeções merece uma avaliação diferente de uma condição estável e tecnicamente explicável.

O formato do aquecimento fornece pistas sobre a falha

A localização e a distribuição da temperatura ajudam a estabelecer hipóteses.

Quando o ponto de maior aquecimento está concentrado exatamente em uma união aparafusada, terminal ou interface elétrica, deve-se investigar a possibilidade de aumento da resistência de contato. Oxidação, degradação superficial, problemas de montagem e pressão de contato inadequada estão entre as condições que podem estar envolvidas.

Quando o aquecimento se distribui por uma extensão maior do condutor, a investigação deve considerar corrente, dimensionamento, condição operacional e dissipação térmica.

Uma diferença entre fases também exige cautela. Antes de classificá-la como anormal, verifique se as correntes são comparáveis. Fases submetidas a carregamentos diferentes podem naturalmente apresentar temperaturas diferentes.

A termografia deve indicar onde e por que investigar, e não substituir automaticamente o diagnóstico elétrico.

Dicas práticas que fazem diferença em campo

Registre a carga junto com o termograma: Sempre que possível, associe a imagem térmica à corrente existente no circuito. Sem essa informação, comparar inspeções realizadas em momentos diferentes pode levar a interpretações equivocadas.

Não analise apenas a temperatura máxima: O padrão térmico, sua localização e a diferença em relação a componentes equivalentes geralmente fornecem informações mais úteis do que simplesmente identificar o maior valor exibido pela câmera.

Tenha cuidado com superfícies metálicas brilhantes: Materiais de baixa emissividade podem refletir radiação térmica proveniente do ambiente e produzir leituras que não representam adequadamente a temperatura real da superfície.

Observe vento e incidência solar: O vento pode aumentar a dissipação térmica e reduzir a temperatura superficial observada. A radiação solar, por outro lado, pode aquecer componentes e criar diferenças que não foram originadas por uma falha elétrica.

Não trabalhe longe demais do alvo: Quando o componente ocupa uma área muito pequena em relação à resolução espacial do equipamento, a temperatura indicada pode não representar adequadamente o ponto que se deseja medir.

Registre uma fotografia convencional: O termograma mostra a distribuição térmica, mas a imagem no espectro visível facilita a identificação posterior da fase, conexão, equipamento e condição física encontrada.

Padronize a rota: Fotografar aproximadamente os mesmos componentes, posições e condições facilita comparações futuras e transforma inspeções isoladas em histórico de condição.

Uma rota termográfica que deixa rastros úteis

Em vez de tratar a inspeção como uma sequência de fotografias, uma forma prática é pensar em cada ponto inspecionado como um pequeno registro de evidências:

ANTES DE MEDIR
Carga do circuito + ambiente + vento + incidência solar

LOCALIZAR
Fases equivalentes + conexões + barramentos + buchas + terminais

CARACTERIZAR
Temperatura + posição + distribuição do aquecimento + diferença entre componentes

CONFIRMAR
Corrente + condição física + comparação com pontos equivalentes

REGISTRAR
Termograma + fotografia visível + identificação do equipamento

COMPARAR
Histórico anterior + evolução da anomalia

DECIDIR
Continuar monitorando + ampliar diagnóstico + programar intervenção

Quando um ponto quente realmente exige intervenção?

Nem todo ponto quente exige desligamento imediato. Da mesma forma, uma pequena diferença térmica não deve ser automaticamente ignorada.

A decisão precisa considerar localização e magnitude da anomalia, carga existente durante a inspeção, histórico, criticidade do circuito, tendência de evolução e possibilidade de confirmação por outras técnicas.

Imagine, por exemplo, uma conexão de uma fase apresentando aquecimento localizado em relação às outras duas. Antes de recomendar reaperto ou substituição, verifique as correntes. Se forem semelhantes, a diferença térmica ganha relevância diagnóstica. Se houver grande desequilíbrio de carga, parte da diferença pode estar relacionada à própria condição operacional.

Persistindo a suspeita, a termografia deve ser complementada por inspeção visual e pelas verificações elétricas e mecânicas tecnicamente aplicáveis ao componente, sempre respeitando os procedimentos de segurança e as condições permitidas para intervenção.

Outro cuidado importante é não transformar diferenças de temperatura encontradas em manuais, procedimentos internos ou guias técnicos em limites universais. Critérios de severidade podem depender do componente, condição operacional, método adotado, referência utilizada e características do sistema.

O maior valor da termografia em sistemas de transmissão de energia não está em encontrar o equipamento que aparece mais quente na câmera. Está em reconhecer um comportamento térmico anormal, relacioná-lo à condição operacional e transformar essa informação em uma decisão tecnicamente fundamentada. Quando carga, termogramas, imagens visíveis e histórico são registrados de forma consistente, a inspeção deixa de ser apenas uma fotografia instantânea e passa a contribuir efetivamente para a confiabilidade, disponibilidade e segurança dos ativos elétricos.

Referências técnicas

  • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 18434-1:2008. Condition monitoring and diagnostics of machines – Thermography – Part 1: General procedures. 1. ed., 2008.
  • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 18434-2:2019. Condition monitoring and diagnostics of machine systems – Thermography – Part 2: Image interpretation and diagnostics. 1. ed., 2019.

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